Li A Romana, de Alberto Moravia, com 16 anos. Li com paixão, totalmente identificada, embora Adriana tivesse se transformado em uma prostituta por questões, digamos, circunstanciais, enquanto eu ainda nem sabia o que era uma trepada no sentido prático do termo. Talvez por uma indolência estranha, por perceber que a vida é um carrossel, em que os personagens e acontecimentos, a princípio inéditos, passam a se repetir a cada volta. Eu talvez seja tão doce, passiva e danificada quanto ela - e talvez com uma limitação hedionda em relação ao algo maior que cortava a sua vida. E um medo enorme de pensar demais. É isso que a diferencia de Giacomo Diodati na narrativa. Deve ser por isso que ela não se matou.
Oops, aí há uma diferença.
Não que eu vá me matar - nisso, sou tão medrosa quanto ela. Tenho medo do que pode vir depois (seja o "depois" tudo ou nada). Mas enfim, o pensamento excessivo é a razão da minha vida ser, talvez, tão penosa. Tudo começou com Marcel Duchamp, que resolveu dar outro nome a uma privada. Ou talvez outro cara que tenha feito algo muito parecido em um contexto específico. É agoniante pensar que um gesto qualquer ou até mesmo o tempo que se seguirá para uma pessoa após a morte de si mesmo pode se resumir em duas simples - porém abrangentes - palavras: tudo ou nada. Consiste nesse sutil aspecto, talvez, todo o cerne de minha vida - e é nessa agonia que me afundo, em certos momentos, confesso, com laivos de um prazer sado-masoquista. Adriana poderia ser um ser passivo e desgraçado para um leitor ingênuo. Ou poderia ser muito mais.